Torrão não, frutos secos em açúcar

A minha mãe tem por hábito, nas épocas de Páscoa e Natal, fazer uma bonita mesa na sala de estar, cheia de coisas extremamente boas e típicas destas épocas. Uma das coisas, que insiste que façamos, mesmo não tendo festa em casa é fazer o mesmo. Diz que é bom, que ajuda a prosperar. Diz ainda que não importa que não vá la ninguém a casa, devemos de fazer isso porque pode aparecer alguém e não ficamos mal.

Ora, eu confesso que me custa muito ter uma mesa farta, de coisas que eu não vou comer. Primeiro porque cá em casa, só eu vou comer, e depois porque eu só de pensar em pão-de-ló por exemplo já estou a medrar para os lados. Ou seja, em prol da alegria dela, eu decidi fazer uma micro mesa, ou estandarte com coisas que se aguentem muito tempo. Por exemplo, no Natal coloco um cesto de frutos secos e um pote cheio de chocolates. Na Páscoa uma tábua com uma mini regueifa e laranjas. Pelo que eu ouço, as laranjas são para se ter dinheiro no próximo ano para o compasso… Eu nem recebo o compasso, mas não entro em conflito com crenças dos meus avós, não sei bem o que isso pode implicar e portanto, está bem eu faço.

Ora bem, o que acontece depois das festas encerradas?? Muito bem. Controlo alimentar, e portanto restos… Desde armários a nadar em chocolates, regueifa doce que nunca mais tem fim e frutos secos.

Os chocolates são comidos pianamente, que é como quem, diz quando chega à próxima festa ainda temos chocolates. Entre o Natal e a Páscoa, são 3 meses. Entre a Páscoa e o Natal 9. Se nos três primeiros não conseguimos comer tudo, nos 9 seguintes temos sérias dificuldades. Pescadinha de rabo na boca.

A regueifa, corto em porções e congelo. Ao longo do tempo vou descongelando e comendo.

Os frutos secos… Bem, este é o problema, o que fazer aos frutos secos?? Não sei… Ah é alimento para o cérebro. Está bem, mas o meu cérebro tem de se cansar muito, antes de começar a comer o miolinho da casca dura… Então hoje tomei uma decisão. Primeiro porque o cesto onde vinham é giríssimo e dá para embelezar o nosso cantinho dos chocolates, segundo, porque já não tenho onde colocar o cesto cheio de frutos secos. Na pascoa serviu de base às laranjas, mas agora, só daqui a 9 meses, portanto hoje tive uma luz!

Quando vinha para casa, e enquanto fazia uma lista mental de tarefas, incluí dar fim aos frutos secos. Cheguei a casa, fiz as tarefas e comecei o processo a que chamei….rufos por favor… DAR FIM AOS FRUTOS SECOS. Que nome tão elaborados e sugestivos, só que não…

Então, abri tudo. Tinha nozes, amêndoas, avelãs e noz pecã. Lavei, e sequei os frutos secos. Reservei, e como se estivesse a fazer Torrão, fiz as barritas de frutos secos. É exatamente igual.

 

FRUTOS SECOS EM AÇÚCAR

O que vais precisar?

  • 100gr de frutos secos sem casca;
  • 100gr de Açúcar;
  • 1 colher se sopa de Manteiga;

Como vais fazer?

  1. Pegas numa frigideira bem larga, e colocas o açúcar e a manteiga;
  2. Quando o açúcar começar a ficar castanho, adiciona-se os frutos secos;
  3. Com uma colher de pau mistura-se tudo muito bem;
  4. Verte-se para papel vegetal, esticando bem, até uma altura máxima, de um fruto seco, e deixa-se arrefecer;
  5. Depois é cortar e comer, ou guardar que foi o que eu fiz…

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Páscoa, sem receita

Eu acho que o Natal e a Páscoa estão ligados.

Do ponto de vista religioso temos de um lado o nascimento de um bebe, do outro a morte e ressurreição desse mesmo bebé/Homem.

Eu fui criada e educada católica e portanto vivo as duas épocas com uma alegria enorme.

Se tivesse de escolher entre uma das duas, teria sérias dificuldades. Em ambos os casos temos a união das pessoas. Quando um bebe nasce, ou quando alguém morre, fica intrínseco ao ser humano fundir-se com outros para receber o amor que dali emana. Às vezes achamos, que na morte as pessoas precisam de espaço, para se adaptar à falência. No entanto, eu, um ser humano carente sinto que na morte precisamos de tanto carinho como no nascimento. Precisamos de sentir que o nosso núcleo está ali. Que perdemos alguém, mas não é uma perda total é uma perda física.

Julgo que os meus sábados de catequese, os livros pagãos e ainda as pesquisas desfreadas para perceber o porquê do ser humano ter de nascer para morrer, fez-me encarar a morte como uma ressurreição. Nós morremos fisicamente, mas durante a vida trabalhamos para que vivamos sempre na mente dos que ficam. Foi isto que eu percebi. É assim que eu entendo. É assim que eu sinto quando alguém a quem quero se vai.

Deus disse a Abraão e Sara, que ainda que velhos iriam ter um filho. Sara riu-se. Se por um lado tinha uma marido velho, por outro ela mesma estava velha. Deus não achou grande piada, e perguntou porque riram. Sara negou que o fez. Acabaram por ter um Isaac, o filho da alegria, aquele que ri. Graças à mãe diria eu.

O ser humano ri, e é alegre, porque o tempo que tem é curto, não é eterno e rir dá prazer, dá conforto, dá saúde. A morte é o nosso limite para gargalhar, mas é a nossa continuação para ficar nos ouvido de quem nos ouve. Para um dia, quando já cá não estivermos, alguém se lembrar do nosso sorriso e sentir-se reconfortado.

Por isso eu sinto que entre o Natal e a Páscoa, o que fica são as gargalhadas, a felicidade, as vivenciais.

Feliz e Santa Páscoa!

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Um limão, meio limão….

Um limão, meio limão, foi um jogo que o Pedro me ensinou, com contornos alcoólicos, e portanto é um jogo não institucional, que em nada vai contribuir para este post, mas sempre que me falam em limão, eu debito a frase, um limão meio limão.

Para mim os limões são sinónimo de Páscoa. A tia Lina fazia 100kg de regueifa num pequeno forno a gás, na sua casa que em comparação com a arquitetura moderna é à escala de uma casa de bonecas. 100kg de regueifa doce, 10 a almoçar, e os piolhos, Marta, Angélica Regina e Inês, sempre aos saltos fora e dentro.

Quando entrares em casa, benze-te e olha para um canto. Não quero as regueifas envejadas… hmpf, ai as crenças da tia Lina. Não abras o forno quando cozes um bolo. Separa bem as claras, senão elas não crescem e o bolo fica mal cozinhado…

Ah a Páscoa. Partir ovos era a tarefa que nós mais gostávamos. Éramos a mão-de-obra, que se oferecia em troca de uma caneca com café e leite e pão para molhar. Como eu tive uma infância simples e feliz, no fim lá íamos nós brincar à apanhada.

Limões. O cheiro da casca de limão lembra-me isto tudo e muito mais. O cheiro da casca de limão cheira-me a: “Gekinha não sejas travessa”. O sabor da limonada, sabe-me a: “Gekinha não ponhas tanto açucarar”. O amargo das pevides, lembra-me a: “ai cai outra vez, e vou levar por cima porque rasguei as meias”.

Os limões são Páscoa e são Verão. São peito de frango grelhado só com sal e sumo de meio limão.

Os limões sabem-me a amor.

Na semana passada ofereceram-me uma saca de limões e vim cheia de brio embora. O carro cheirava a limão. Não sei descrever o cheiro, sei que é um cheiro que me atrai bastante. Se me cheirar a limão eu quase que aposto que é bom.

Foi assim, com este pensamento que fiz um bolo de limão, que só demora mesmo a cozer, porque a fazer, até assusta de tão simples

BOLO DE LIMÃO

O que vais precisar?

  • 3 Ovos
  • 1 Chávena de sumo de limão
  • 1+1/2 Chávena de açúcar
  • 2 Chávena de farinha
  • 1 Chávena de óleo
  • Raspa de 1 limão
  • Cobertura: Sumo de um limão, 1/2  chávena de açúcar, casca de limão

Como vais fazer?

  1. Colocas os ovos, o óleo, as raspa e o sumo de limão no liquidificador, até ficar uma mistura homogénea;
  2. Retiras, colocas numa vasilha mais largar e adicionas o açúcar e a farinhas e com uma colher de pau misturas bem;
  3. Untas uma forma e levas ao forno;
  4. Enquanto o bolo coze, levas o sumo de um limão as cascas e o açúcar ao lume até ficar uma calda;
  5. Quando o bolo estiver cozido, retiras, deixas esfriar um bocadinho, picas com um palito e vertes a calda, previamente coada;
  6. Tenta aguentar e só o abrir quando estiver frio… mas morno é um pecado!

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A Páscoa em Portugal!

VERSÃO PORTUGUESA

Para mim não há nada mais tipicamente português do que a Páscoa.

Os festejos começam 1 semana antes, no chamado dia de ramos, quando todos se deslocam às suas madrinhas para oferecer o ramo. Depois vem a semana da azáfama. Limpam-se as casas, colocam-se flores, faz-se uma mesa bonita, com atoalhados de renda e recebe-se os padrinhos e o compasso com popa e circunstância, no tão aguardado Domingo de Páscoa.

Para quem vive em cidades grandes, e nunca ouviu falar nestes termos, eu explico. O Compasso, é um grupo de pessoa, com ou sem Padre, que se deslocam a casa dos fieis para dar a Boa Nova. A noticia é: afinal Jesus ressuscitou. Sim, as típicas famílias portuguesas, com raízes na igreja Católica, vivem a Páscoa de uma forma tão ou mais intensa do que o Natal. Se no Natal nasce o menino. Na Páscoa, o menino é já um Homem que entrega a vida por nós, mas volta ressuscitado. Isto soa muito estranho, mas estamos a falar de uma religião. Tudo é discutível, mas eu não discuto religião, porque na verdade a religião é uma forma de alimentar a alma, e do meu ponto de vista, ninguém tem o direito de questionar o que oferecemos à alma para a alimentar, até podiam ser nozes… e depois!?

Pois bem, voltando ao ritual da Páscoa. “(…)Faz-se uma mesa bonita (…)”, não quero com isto dizer, que todos os anos na Páscoa se constrói uma mesa… Não, todos os anos na Páscoa preparam-se doces típicos para se colocar na mesa. A regueifa doce, o folar doce ou salgado, os ovos de chocolates, as amêndoas de todas as cores e feitios, os ovos moles e o pão-de-ló, bolo de laranja, empanadinhas da Páscoa (que estou à espera que a Andreia se lembre, e me traga uma para eu não acabar desconsolada), vinho do porto (que ajuda o compasso a chegar à Igreja bem acompanhado). Enfim, a intenção é sentir-se o cantar da mesa, como se de uma sereia da Ilíada se tratasse. Canto este que é de tal modo afinado, que quando nos apercebemos estamos com o mesmo rabo do coelhinho da Páscoa… que por muito estranho que possa parecer, é um mamífero que dá ovos… de chocolate… Ora bem, se formos a falar da tradição dos ovos de chocolate, acabamos numa outra típica Páscoa que não a portuguesa, visto que o ovos da Páscoa são uma tradição importada…

Pois bem, esta época leva-me à minha infância, quando a tia Lina amassava 500kg de regueifa sozinha… vá com ajuda do tio Álvaro, com muita chateação minha, da Marta, da Regina, da Inês, da Patrícia e do Arsénio… Ainda hoje não entendo como foi possível, numa casa com pouco mais do que 24m2, colocar 9 pessoas a comer e 500kg de regueifa a cozer. Ainda hoje me questiono, onde ia ela buscar paciência para nos ir procurar, enquanto a massa crescia. Ainda hoje me questiono como conseguiram que tudo parecesse tão simples.

Eu acho que sei, chama-se a Páscoa de cada um de nós. Dar a vida pelos nossos, acabar morto pelo cansaço e no fim dizer, que venham muitas mais épocas como esta.

Para mim isto é tipicamente Português. Fazer das tripas coração, correr para que nada falte e no fim, depois da exaustão, sentir que para ano vai haver mais e eu vou lá estar. Por tudo isto, a Páscoa é algo tão Português. Este povo, muitas vezes esquecido vive em constante Páscoa, e quando os sinos gritam Aleluía Aleluía, é dia de festa e de voltar a viver!

Feliz dia de Páscoa!

Ps: não trago regueifa doce da tia Lina, mas trago fotos das da mãe Irene, que não me canso de comer…

ENGLISH VERSION

To me there is nothing more typically Portuguese than Easter.

The festivities begin one week before, the so-called day of Holly day, when every one offers a branch to godparents. Then comes the week rush. First cleaning the houses and placing flowers. Then, a beautiful table is set with lace toal to receive godparents and “compasso” with huge joy, in the highly anticipated Easter Sunday.

For those who live in big cities, and never heard those terms, I explain. The “Compasso” is a group of people, with or without priest, moving into home of the faithful to give the Good News. The news are: after all, Jesus was resurrected. Yes, the typical Portuguese families with roots in the Catholic church, live Easter in a way as/or more intense than Christmas. If Christmas is the born of a child. At Easter, the boy is already a man giving his life for us, but comes resurrected. This sounds very strange, but we are talking about a religion. Everything is debatable, but I do not discuss religion, because religion is in fact a way to feed the soul, and from my point of view, no one has the right to question what we offer to the soul for food, they could even be nuts. .. and then what!?

Well, back to the ritual of Easter. “(…) setting a beautiful table (…)” I do not want to say, that every year at Easter we have to build a table … No, every year at Easter we prepare typical food to put on the table. The “regueifa”, sweet or salty “folar”, chocolate eggs, almonds of all colors and sizes, soft eggs and sponge cake, orange cake, “empanadinhas da Páscoa” (I’m waiting for Andreia to remember, and bring me so I do not end up dreaming with it), Port wine (which helps the “compasso” to get to the church in good company). Finally, the intention is to feel the singing of the table, like a mermaid at Iliad. This sing is so tuned that when we realize we have the same but as a Easter Bunny … which is strange as it may seem, because it is a mammal that gives eggs … chocolate ones… Well, if we are talking about the tradition of chocolate eggs, we’ll get in another matter different from typical Portuguese Easter, as the Easter eggs are an imported tradition …

Well, this season brings me to my childhood, when Aunt Lina use to bake about 500kg of “regueifa” alone … well with Uncle Alvaro’s help, and the anoyance of me, Marta, Regina, Inês, Patricia and Arsenio … still do not understand how it was possible, in a house with little more than 24m2, put 9 people eating and 500kg of “regueifa” to bake. Still ask myself, where she would get the patience to go look for us, while the dough grew. Still ask myself how did it all seem so simple.

I think I know, is the so called Easter ofeach one of us. Giving our lives for ours, ending up dead with fatigue and at the end say, come many more times like this.

For me this is typically Portuguese. Do our best, and at the end, after exhaustion, feel that for years there will be more and I’ll be there. For all this, Easter is so Portuguese. These people, often overlooked are constantly on Easter, and when the bells cry Alleluia, is a day of celebration and return to live!

Happy Easter day!

Ps: do not brought Aunt Lina’s “regueifa”, but brought photos of Mom Irene’s ones, who I can not get enough eating …

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