Oh Ilda que t’enliaste…

“OH MIGAAA, VOCÊ ESTÁ BOA?”

“ESTOUUUUU”

“ESSA BIDAA”

“SOU SABIDA?”

Era mais ou menos assim que se iniciavam as nossas conversas, quando ia a casa dos meus pais para ver toda agente. Ela estava normalmente sentada no sofá, à espera. Não me posso convencer de que esperava por mim, até porque não ia lá todos os dias, mas ela estava ali. Para mim era reconfortante ver a minha “miga” ali. Vivemos ininterruptamente um ano juntas, cada uma no seu quarto claro, mas eu sentia-a. É parvo dizer que era como quando a Marta lá estava. Não era. Eu e a Marta perdido e achado estávamos pegadas, mas sabíamos que por muito que nos custasse, fomos inclinas do útero da minha mãe, e portanto tínhamos de aprender a ser uma para a outra. Com a Ilda não. Primeiro porque se tivéssemos dividido útero, provavelmente estaríamos num qualquer filme holiwodesco e não na vida real. Segundo porque ela não pertence à minha árvore genealógica.

Lembro-me de ter 5/6 anos, estar num jardim gigante, numa casa que cheirava estranho, uma senhora num cadeirão verde e duas senhoras de meia idade de bata, muito bem arranjadas a tratar do jantar. Tenho vagas imagens dos meus pais, e sei que estava com a Marta, nas pueris correrias pelo jardim, depois de ter comido pescada cozida, iuk, e ouvir alguém chamar para a sobremesa. Era uma voz esganiçada e altiva. A sobremesa era um feast daqueles dos anos 90 que não tinha chocolate pelo meio só por fora. Estava cheio de cristais de gelo por ter sido congelado e descongelado vezes sem conta… não sabia bem, mas depois de pescada cozida, que mais podíamos pedir??

Os anos passaram e a mais velha das duas sempre foi desagradável. Eu acredito que fosse pela vida que levou. Muito trabalho, pouca alegria. Viviam umas para as outras, mãe e 3 filhas. Um dia, a mais velha casou, engravidou, e a mãe e as irmãs meteram-se num barco, e foram ajudar a criar o sobrinho. Uma vez perguntei se nunca se tinha apaixonado. Deu-me como resposta que “lá na América, havia um Italiano que queria casar comigo, mas eu não quis. Nunca quis rapaz. Eles queriam dançar comigo e tudo, mas eu não queria”, “Porquê?”, perguntei eu. “I don’t know Marta, Angélica. I don’t know”. Vou sentir falta disto. Toda a vida fui Angélica, e nos últimos anos, até me sinto um bocadinho Marta. Não havia dia, em que eu não fosse Marta, o Pedro João, a Marta Angélica, o Sr. Arsénio Séninho e a dona Irene, “como se chama Dona Irene?”.

Um dia, os meus pais foram dar uma volta, e ficamos as duas 3 dias em casa sozinhas, mandamos castrar o cão e o gato e ficamos as duas a tomar conta deles. Quando os fomos buscar ao veterinário, eles estavam mais para lá do que para cá. Ela chorou todo o caminho, mandou-me ligar 2 vezes ao veterinário para termos certeza de que não iam morrer. Eu disse que era normal, eles estavam sedados. Ela respondeu-me que quando mandaram capar a taruqinha, ela não vinha assim. Então eu decidi contar-lhe a verdade, a taruca na verdade era um taruco, e elas tinham sido enganadas pelo taxista que estava farto de ser chamado para levar a gata/gato ao veterinário. Portanto, ele ficou com o dinheiro da castração, deu uma volta com o gato no carro e depois entregou-o “capado”. CANDONGUEIRO, foi a resposta dela. “Nós éramos, mesmo umas Julinhas”.

Candongueiro, a Marta é a nossa candongueira.

Julinhas, essa era a Ilda. “Oh Ilda, você não me saia Julinha.”, “Não, que eu sou muito esperta”

No outro dia, vinha para sair de casa e disse:

“Good bye Ilda”

“See you Later Angélica”

Voltei atrás e disse:

“Como disse?”

“I don’t know Marta”

Vou ter saudades disto.

Santo Agostinho, diz que se amamos não choramos. Eu vou-me esforçar. Hoje é o ultimo dia de choro.

Resta-me saber que a minha Miga agora está com a Mãezinha, a Gracinda e a Micas. Resta-me saber que a minha Miga, agora pode comer pizza, porque voltou a ter os dentes todos, que inexistentes tantas vezes lhe doíam. Resta-me saber que a minha Ilda foi amada como, tia, avó e mãe nestes últimos tempo. Resta-me saber que fizemos tudo para que fosse feliz.

See you later Ilda!

Ilda