Eish tira-me isso da frente….

Para mim, uma sobremesa especial, tem de me deixar sonhar. Tem de explodir enquanto saboreio.

Eu gosto de comida salgada, doce, amarga e meia amarga. No entanto, se me derem a escolher entre por exemplo uma mousse de chocolate caseira, e um alto bife mal passado, cujos sucos estão a fazer a dança mais sensual existente à face da terra, eu vou optar pela mousse de chocolate. Não por ser chocolate, mas pela doçura que isso acarreta. Já dentro das sobremesas, se me derem a escolher entre uma mousse de chocolate caseira, um crumble de maçã, ou um tiramisu, eu vou demorar muito tempo a escolher. Mencionei estas três, mas a panóplia é extensa. Tudo porque, quando vamos jantar fora, eu sou assertiva e precisa nos pratos principais, sei o que gosto, conheço os meus limites e sei muito bem do que não gosto. Já quando a sinfonia toca a valsa das sobremesas, eu não sei o que escolher. Eu paro, e não consigo decidir se guio ou sou guiada… No entanto, existe ali um momento, mesmo após a sobremesa me ser servida, que eu tenho uma conexão intima entre o meu cérebro e o meu corpo, eu sei o que gostaria que aquela sobremesa me provocasse, mas receio vezes sem conta sair desconsolada. É difícil acontecer, bem sei, mas acontecer o que me aconteceu à dias, é ainda mais difícil.

Eu estive em Paris. Não interessa quando, porquê ou com quem. Interessa a sobremesa que eu provei. Interessa, que depois de me terem dado a lista de sobremesas, eu não me senti, por recato, tentada a comer nada, mas da segunda vez não consegui resistir. Eu acho que o meu cérebro apagou, durante a primeira proclamação da lista de sobremesas, mas na segunda já não conseguiu. Tudo porque no fim a menina dizia, com o seu sotaque tão parisiense, “Tirramisu Nutella”.

“Oi? Como disse?” Perguntei eu, já com o meu cerveau gormand (foram 10h lá, já sou quase fluente) e ela repetiu “ohhhh Tirramissu Nutella”. Pronto, não deu para dizer não. Como assim dizer não?!É tiramisu, tem Nutella… ui ui ui ui (não posso repetir todos os “uis” que me dispararam no momento)… hmmm eu estava mesmo a candidatar-me a um crepe na torre Eiffel… Mas, serei eu capaz de ultrapassar tal sobremesa? Não Angélica, nunca na vida tu vais ultrapassar a perda de oportunidade de provar semelhante incremento ao teu cardápio ( e coxas…) “Ah, oui! Un tiramisu Nutella pour moi”. A moça, sai saltitante e feliz, e passado um bocadinho volta, novamente saltitante e feliz, com um copinho, cheio de uma mistura de cores… Branco, castanho escuro, branco, castanho chocolate, sim porque se o azul pode ser Klein, o castanho pode ser chocolate!

O copo foi-me “oferecido” acompanhado de uma daquelas colheres, que retêm o conteúdo de uma forma quase maternal. Conchinha. Eu respirei, e naquele momento, não criei expectativas, não pensei nos sabores independentes de um tiramisu, muito menos no sabor obsceno da Nutella. Eu enterrei a colher no copo, e retirei um pedaço de cada camada, e levei à boca.

Já alguma vez ouviste a Carmina Burana de Carl Orff?? No Inicio começa com Fortuna. E tem ali uma introdução forte, que te cola ao banco/cadeira

“O fortuna,

Velut Luna

Statu variabilia

Semper Crescis

Aut decrescis”

Foi isto, que eu senti ser a banda sonora da experiência de comer um tiramisu de Nutella. Uma sorte como a lua, mutável, que sempre cresce ou diminui. O café misturado com amaretto, o amargo das natas e mascarpone e a doçura viciante da Nutella. Era uma ópera o que cantavam as minhas papilas gustativas e eu queria mais. Era uma Ópera tocada pela mais doce e fantástica orquestra, do mundo. Foi incrível. E eu comi sem pressas, sem culpas, como quando se assiste a uma ópera. Comi como quem saboreia uma ópera tão completa como a Carmina Burana. E como quem sai da ópera, cheia de informação, cheia de sentimento, eu saí cheia de tiramisu, eu não me lembro do facto de a massa de pesto e tomate cherry ter sido simplesinha, eu lembro-me da sensação de saborear cada colher de sobremesa.

Lembro-me que, já depois desta sobremesa fiz cerca de 20Mil passos, e a cada passo que dava tentava mentalmente separar cada sabor para poder perceber como recrear. Para tentar que outros pudessem experiênciar uma ida à Ópera.

Sábado fiz. No sábado, transformei a minha cozinha num salão de ensaio. Optei por trocar o mascarpone por Skyr porque o sabor do queijo é mais intenso, troquei o amaretto por Martini Rosso, porque o Martini trás-me fantásticas memórias e a doçura misturada com café forte arrepia-me a nuca , e troquei a Nutella por Nocilla. Confesso, que acho a Nocilla zero açucares, e sem óleo de palma, muito mais natural e intensa, mas atenção eu não dispenso Nutella, só que cá em casa há sempre um pote de Nocilla!

Resultado? A mim foi como voltar a ir à opera, foi novamente sentir todas as sensações e mais algumas, desta vez ouvi Granada cantada pelo José Carreras, não sei se pela Nocilla ser espanhola, se pelo facto desta canção me arrepiar dos pés à cabeça, quando cantada pelo Sr. Carreras… No entanto, como na ópera, o meu grupo teste, não achou piada nenhuma, e foi precisamente a explosão de sabores que causou confusão. Paciência, hei-de repetir só para mim, e já que não vou à opera, ao menos ouço-a na minha cabeça!

TIRAMISU NOCILLA

O que vais precisar?

  • 2 iogurtes Skyr;
  • 1 pacote de natas (200ml)
  • 1 colher de açúcar;
  • 2 pacotes de palitos de champagne;
  • 6 cafés fortes;
  • 2 colher de sopa de Martini Rosso;
  • Nocilla qb.

Como vais fazer?

  1. Bater as natas com o skyr e o açucar, até criar um creme bem espesso;
  2. Misturar o café e o Martini;
  3. Derreter a Nocilla até ficar liquida;
  4. Embeber os palitos de champanhe no café, mas não at+e amolecer, só até ficarem húmidos, e forrar o fundo da taça;
  5. Cobrir os palitos com o creme de natas e Skyr, uma camada de 1/2cm;
  6. Cobrir a camada de creme com Nocilla, não é preciso tapar todos os pontos brancos, mas ao menos espalhar bem;
  7. Repetir camadas, até acabar os ingredientes mas acabar com Nocilla!

Hmmm agora difícil vai ser perceber o que canta o teu cérebro…

 

 

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O Sheldon já senta…

Finalmente consegui ensinar alguma coisa, para alem de xixi e cocó na rua, ao Sheldon.

Confesso que estava a achar que nunca mais na vida ia ser possível, ensinar o orelhas a fazer tarefas básicas como, senta, dá a pata, dá a outra pata, Hi5. Não consigo, para já mais do que isto, e custou-me tanto chegar aqui, que descobri que dentro de mim existe uma mulher mais persistente do que alguma vez pensei possível. Ainda por cima é, sem duvida, uma luta inglória. Primeiro, porque dedico o tempo que aquecimento do meu almoço, à actividade de ensinar o Sheldon. Julgo ser o melhor momento, cheira a comida na cozinha e como sempre, tudo acontece ali, na nossa cozinha de chão preto e branco. Inicialmente, tentei que ele aprendesse só com o meu tom de voz, não funcionou, até porque ele só quer mesmo o que vem do forno. Depois experimentei a cena dos treinadores. Reforço positivo. No entanto, isto do reforço positivo tem muito que se lhe diga, ele enquanto o biscoito agrada é um santo descoordenado, quando o cheiro da comida começa a inundar a casa ele ignora-me. Ignora mesmo, ao ponto de estar sentado, aparentemente a ouvir o que estou a dizer, na verdade a olhar para o biscoito, e assim como que num piscar de olhos levanta-se contorna-me se senta-se de frente para o forno. Hoje, até me dei ao trabalho de absorver toda a cena. Ele sentou-se de frente para o forno, a ladrar, lentamente, tipo filme em slow motion, e parecia que o forno lhe dava resposta: “Calma míudo, daqui a nada esta cena ’tá pronta”. Ah, se o meu forno falasse era ainda mais calão que o cão. Ele não tem culpa, culpa tem o cão que lhe arrancou os botões, pouco depois de vir cá para casa viver. Para piorar besunta-mo-lo com chipotle, nesta altura quem sofreu foi o cão, que bebeu duas taças de água em duas horas sem exercício… Eu imagino muitas vezes as conversas que o Sheldon tem com o forno. Muitas vezes é uma conversa muda, outras vezes demasiado barulhenta. Já com a batedeira, bem é um forobodó, ela está a dar andamento aos ovos com açúcar enquanto o Sheldon canta um fado. Cá em casa, quando eu dedico tempo para fazer um bolo ou uma sobremesa, que implique a utilização da batedeira, tudo se torna uma chinfrineira infinita, o Sheldon fica doido. O processo de abrir a porta do armário que leva ao mundo da Pâtisserie, torna-me mais descontraída, mais feliz e torna o sheldon um cão louco. Julgo que seja a insanidade dos cheiros, que para mim são mudos, mas para ele… Bem, para o Sheldon são a Banda de Melros em plena procissão da Senhora da Agonia.

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Eu adoro isto. Eu adoro saber, que tenho ovos, açúcar e farinha. Eu adoro saber que há hipótese de fazer coisas novas, quando chegar a casa.

Ontem o meu pai fez anos, e no dia anterior, o Pedro foi buscar-me ao aeroporto, e enquanto vínhamos no carro a caminho de casa e já depois de conversar um bocadinho com os meus pais. Diz-me o Pedro: “porque não fazemos um jantar em nossa casa para o teu pai? Fazes uma daquelas tuas coisas especiais”.

Eu pensei na banda de Melros na Senhora da Agonia, pensei como o meu dia seguinte ia precisar de uma festa no fim… Só lhe disse: “Olha, boa ideia”. Mas dentro de mim, só contava minutos para aquele momento na minha cozinha, e no culminar de um bolo simples de aniversário, como o meu pai tanto gosta e como eu tão feliz sou a fazer!

BOLO DE BANANA E CHOCOLATE

O que vais precisar?

  • 2 Bananas bem maduras;
  • 1 chávena de Açúcar;
  • 10 colheres de sopa de manteiga derretida, não uses liquida, derrete manteiga;
  • 2 chávenas de farinha;
  • 2 Ovos;
  • 30gr de chocolate negro 70% cacau cortado em pedacinhos;
  • 1 colher de presencia de baunilha;
  • meia colher de café de fermento em pó;
  • 4 colheres de sopa de leite

Como vais fazer?

  1. Liga o fogão 150º e unta uma forma, eu usei redonda, mas normalmente este bolo vem em formas rectangulares;
  2. com ajuda de um garfo, desfaz a banana numa papa, descasca-a primeiro;
  3. Coloca a manteiga, com o açúcar e bates bem, quando estes estiverem bem misturado, tipo pasta, adicionas os ovos, o leite e a baunilha, mexes tudo novamente, e no fim adicionas a banana e o chocolate;
  4. Agora adicionas a farinha e o fermento, e misturas com a colher de pau;
  5. Vertes para uma forma e levas ao forno, o meu demorou uns 40 minutos a cozer, mas isto depende dos fornos, e por isso o melhor é testar com o palito.

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O irmão mais novo

Ser-se o irmão mais novo, num grupo de dois, tem muito que se lhe diga. Primeiro, para se ser o favorito, temos de lutar com unhas e dentes e muito dificilmente lá chegamos. Temos de conseguir conquistar tudo e todos, mal a nossa mãe recebe a noticia da nossa existência.

Primeiro informar a mãe, que muitas vezes está a desejar aquela segunda existência, outras vezes entra em choque, porque se sai um como o primeiro o caldo está entornado.

Depois informar o pai. Normalmente este reage com alguma pacificidade, afinal tem 9 meses, ou menos, para se adaptar. Primeiro tem de cuidar da mãe hormonal, depois do primeiro filho que se auto-exclui à priori, e finalmente vai lembrar-se de todas as noites mal dormidas que tem e começa a ganhar um pouco de “asco” ao próximo elemento que se aproxima. Normalmente quando se dá conta deste passo, já o segundo está cá fora e aos berros porque ou tem cocó ou tem fome…

Depois temos a conquista por um lugar no coração daquele Ser que tem mais idade do que nós, mas que pouco ou nada tem de voto na matéria. Ok, há muitos irmãos mais velhos, que pedem encarecidamente um mano aos pais, mas ele não sabe o que está a fazer, lembrem-se é uma criança, e se o estado só lhe atribui legalidade aos 18 anos, porque hão-de os pais, ouvi-lo antes disso?

Pois, no meu caso não deu sequer para isso, no entanto, olhando para o meu video de baptizado, ( sim eu tenho um video porque os padrinhos da minha irmã, são emigrantes franceses e lá toda a novidade chegava primeiro do que cá) concluo que a minha irmã, nunca iria pedir um mano/a. Ela era doida pelos meus pais, e eu aposto que o primeiro pensamento assassino que ela teve, foi pouco depois de me conhecer, tinha ela dois anos e 1 mês. Aposto que quando lhe disseram, olha aqui a mana que te vai sugar o papá e a mamã nos próximos anos cruciais da tua infância. A bonitona do olhão grande. Já ninguém te vai ver como o bebé, de hoje em diante és a micro adulta, que tem de ajudar a mamã a trocar fraldas…. Presumo que isto tenha sido dito, na maternidade. Porque se tivesse sido na cozinha, a minha irmã transformava-se num pequeno Chucky, e que venham de lá as facas de cozinha!!!

Assim, deste momento em diante, a minha irmã, tomou rédeas da casa, eu chorava comia e andava a conhecer lentamente o mundo, e ela aprendeu precocemente a servir o meu pai, a falar, e no meio, a ganhar uma relação amor-ódio por mim. Amor, porque eu fazia xixi na cama e ela protegia-me sem fim, ódio, porque eu comia tudo num ápice e depois queria mais do que ela lentamente saboreava. Eu sinto, nas fotos da nossa infância, um certo prazer nos olhos dela, de me ver encarecidamente a pedir um bocadinho do que quer que fosse que ela estivesse a comer, e eu já tivesse devorado.

Ah era uma luta, diária.

Entramos para a escola, ela era sempre melhor que eu. Não dava erros, comia de faca e garfo, aprendeu cedo a fazer bolos. Nunca rompeu umas meias de vidro. Já eu… apanhei piolhos, não havia meias que quisessem as minhas pernas, dava em media 10 erros por ditado e fazia os F’s ao contrario. Os meus pais suspiravam, exasperavam, mas depois olhavam para o prodigio e descontraiam.

A primeira vez que a Marta fez um bolo lá em casa, foi de uma receita de uma aula de francês. Até me arrepio, só de pensar em tudo. Ela chegou a casa, cheia de pose, e depois de na aula terem traduzido a receita de fio a pavio, pediu à minha mãe para fazer o seu primeiro bolo. A minha mãe, nunca tinha visto semelhante receita, mas confiava tanto na Martinha, e lá lhe deu o que ela precisava e ela sozinha fez o primeiro bolo. Um bolo de ananás. Era incrível. Estou aqui a escrever e a salivar, mas a minha primeira reacção foi: “Porra que porcaria”. No entanto, às escondidas, lá ia mais uma fatia.

Ah bons tempos, em que comer meio bolo não implicava dois kg em cada coxa.

O prodígio passou a ser a menina bonita até na cozinha. Já eu, quando pedia para fazer um bolo, a minha mãe não largava a cozinha, e o ambiente era tão pesado… Não sabes separar ovos, tu és uma descoordenada. Tens de bater mais as claras. Para, tu só gastas coisas e não fazes nada.

PORRA, eu desistia. Assim como desistia de fazer ponto de cruz, renda e outras coisas como aulas de piano, que para os meus pais eram essenciais.

Graças a Deus, às tantas encontramos um equilíbrio. Eu fiquei mais calma e a minha irmã começou a partir louça. Eu passei a separar bem os ovos, e a minha irmã a chegar depois de horas. As minhas meias já não tinham foguetes, e a minha irmã lutava por uma calças à boca-de-sino.

Eventualmente, passamos a ser as irmãs Rochinha, como nos morangos com açúcar (mas sem a projecção mediática delas), e eu aprendi a fazer bolo de ananás!

 

BOLO DE ANANÁS

O que vais precisar?

  • 4 Ovos
  • 2 chávenas de açúcar;
  • 1 chávena de farinha;
  • 1 chávena de amido de milho;
  • 1 colher de café de fermento em pó;
  • 1/2 chávena de óleo;
  • 1/2 chávena de calda de ananás em lata;
  • O ananás da lata;
  • Óleo e açúcar para untar a forma;

Como vai fazer?

  1. Ligar o forno;
  2. Bater os ovos inteiro com o açúcar, até dobrar o tamanho;
  3. Colocar o óleo e a calda, depois as farinhas e fermento;
  4. Quando a massa fizer bolinhas está pronta para ir ao forno;
  5. Untar a forma com óleo e polvilhar com açúcar normal, por toda a forma, distribuir depois as rodelas de ananás pela forma, e por fim verter a massa, e levar ao forno;
  6. O bolo estará cozido, quando após o teste do palito, este sair sequinho.

Et Voilá, a todos os irmãos mais novos!

 

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Manhã de dia 23

Janeiro 2018

“Angélica, faltam 6 meses, e eu vejo-te muito calma. Tu já pensaste nos mapas para os convidados? Tu já convidaste toda a gente? Tu já pensaste como vais fazer no dia?”

“Mãe, respira, eu e o Pedro temos tudo sob controle”

Não tínhamos, mas ainda tínhamos 6 meses.

Março 2018

“Mãe, estive a pensar e acho que no dia do casamento, como é à tarde, podíamos levantar-nos cedo, e íamos fazer um brunch a qualquer lado, ou arranjar alguém que nos venha cá a casa fazer um brunch. Ou eu própria posso organizar um brunch… Faço panquecas, French Toasts, sumo de laranja natural… e lá para as 11 vamos ao cabeleireiro e então iniciamos o processo, preparar a noiva”

Confesso que não consigo lembrar-me de ter conseguido dizer tudo isto à minha mãe, que estava a conduzir para o cabeleireiro, comigo no lugar do pendura.

Confesso também, que agradeço o facto de ela ser uma bomba que explode antes do tempo. De contrário, julgo que se me tivesse ouvido até ao fim, teria tido um micro enfarte, e a 3 meses do casamento não ia ser muito simpático.

“Ouve lá, tu estás bem? Tu vais acordar cedo para ires para o cabeleireiro minha menina, brunch?? Primeiro não faço ideia o que isso é, segundo nós vamos é abrir a porta de nossa casa, com comida na mesa para os convidados não irem de estômago vazio para o casamento”

Aqui percebi que ia ser uma luta inglória, ela desarmou-me com “não sei o que é um brunch“. Para piorar, eu sei que numa luta com a minha mãe, mesmo que eu ganhe ela é sempre a vencedora.

Maio 2018

“Meus meninos, vocês já têm tudo organizado? Timmings dos fotógrafos? Cerimónia pronta? Eu vejo-vos demasiado calmos para quem casa em pouco menos de um mês! A Meninha, tem de organizar a agenda dela! Todas as tias estão em compasso de espera porque vocês não dizem horas. O Sr. Henriques, diz que vem ter a nossa casa e que come por lá qualquer coisa. A tia Dália já ligou, para saber se vai haver comida em nossa casa…”

“Então, e a ideia do brunch? Nós e as damas de honor, a comer bastante logo pela manhã para nos aguentarmos todo o dia??”

Pronto a minha mãe aqui, morreu um bocadinho por dentro. Olhou para mim, como se eu fosse um caso sem solução. Respirou fundo, olhou para mim e disse: “Escolhe outro dia para essa coisa, no dia do teu casamento, tu vais estar com os sentimentos à flor da pele. No dia do teu casamento tu vai nem vais ter tempo para pensar um brunchs. Tu vais estar nervosa e stressada, para que tudo corra bem. A comida nem te vai descer”

Eu absorvi aquilo, como absorvo os meus pequenos almoços de fim de semana. Calmamente.

16 Junho 2018

“Andreia, ainda demoras para irmos provar os vestidos?”

“Não, estou a chegar. A Sofia ’tá doente. Tínhamos planeado levar-te, depois dos vestidos a um brunch. Vamos as duas?”

Ideia tentadora, mas estávamos só as duas, e durante a tarde era a minha despedida de solteira…

“Não. Ou vamos todas, ou não vai ninguém”

23 de Junho 2018

6h da manhã

Acordei com um martelar tresloucado mesmo por cima da minha cabeça, luzes acesas. Olhei para o relógio e pensei “O que é que aconteceu?”

Levantei-me para ir à casa-de-banho, encontrei-me com o meu pai no corredor. Trocamos um olhar silencioso, mas que me diz muito… diz: “a mãe já anda a 1100/h”. Entrei na casa-de-banho dois minutos depois, a cabeça mais bonita de todas, com os olhos mais maternais que eu conheço, aparece-me na casa de banho e diz: “Bom dia!!! dormiste bem??”

“Não, tu meteste a porcaria da máquina a lavar” assim, bruta e fria… O que poderia eu fazer?? Era verdade, ela tinha-me prometido calma… eram 6h da manhã, já estávamos todos acordados… mais valia termos ido todos para o brunch

Hmpf… Voltei para a cama, dormi mais duas horas. Levantei-me, fui acordar o meu pai, como já não fazia à algum tempo.

Tomei um pequeno almoço, com muito açúcar. Fui para o cabeleireiro, estive com as minhas primas, e comi mais meia bola de Berlim. Voltei a casa, vieram os fotógrafos e a maquiadora, e um caixa de miniaturas de bolos.

Vesti-me, tirei um milhão de fotos. Estive com todos os convidados, que souberam da “casa aberta” e ainda cortei broa com o meu vestido vestido.

Às 14h saímos de casa.

Não tive um brunch, propriamente dito, mas tive uma manhã cheia de pessoas e muita comida, desde doces a salgados! Bendita manhã de casamento, e mãe que não faltou com nada!

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FRENCH TOAST DA ANGIE
O que vais precisar?

  • 100ml de leite;
  • 1 ovo;
  • 1/2 colher de café de canela;
  • 1/2 colher de sopa de açúcar;
  • 1 colher de sopa de manteiga
  • 20gr de chocolate negro;
  • 2 fatias de pão de forma;

Como vais fazer?

  1. Num prato de sopa colocas, o leite, a canela, o açúcar e o ovo, mexes tudo muito bem;
  2. Coloca uma frigideira anti aderente ao lume e a colher de manteiga para esta derreter.
  3. Mergulha o pão no preparado anterior, de um lado e do outro, bem ensopado, e coloca na frigideira (como se estivesses a fazer rabanadas, mas com muito menos gordura);
  4. Repete o processo para a outra fatia de pão;
  5. Quando ambas estiverem tostadas, não queimadas, de ambos os lados, colocas o chocolate sobre uma fatia e cobre com a outro fatia;
  6. Deixas tostar mais um bocadinho de cada lado e serve;

De manhã começa o dia…

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Sem prazo de validade no calcanhar…

Ontem fui a um funeral.

Que bela maneira de começar isto…

Pois bem, fui a um funeral de um vizinho, pelo qual criei alguma estima, depois de ter acompanhado de perto o início da doença que acabou com ele ali, sem vida num caixão e comigo, cheia de vida a pensar que na última vez que o tinha visto, ele foi simplesmente um doce quando me viu. Como aliás era sempre.

A esposa, já morreu há algum tempo, não tive oportunidade de ir ao funeral dela. No entanto, também ela me ficou marcada, porque enquanto cuidava preciosamente do marido, foi diagnosticada com um problema rarissimo nos ossos e só durou o tempo de perceber que o marido tinha alguma independência. Quando ele já conseguia fazer a vida dele, ela foi-se.

Isto parece um fado demasiado pesado. E é. É um fado que eu julgo, nenhum de nós decide ter, quando os nossos pais nos conseguem finalmente conceber.

Fado…

Ontem, o Diácono, enquanto pregava, para as almas com vida, e as sem vida também, dizia: “será que nascemos para morrer, ou vivemos para morrer?”. Confesso que aquilo mexeu comigo.

Nós somos concebido, com ou sem amor, o processo até chegarmos cá fora é uma seleção. Uns chegam outros ficam pelo caminho. Depois, de já cá fora, vamos aprendendo o básico, uns atingem o complexo, outros chegam a um nível superior, e depois há os restritos, que atingem o nível de conhecimento extra superior. (Novamente seleção natural). Atenção, não me refiro a conhecimentos académicos, refiro-me a conhecimentos sociais, conhecimentos que aprendemos uns com os outros. O meu pai sempre disse: “Tu aprendes muito na sala de aula, mas nos corredores acabas mestre mais cedo…”

Ou seja, estar aqui, hoje, mais velho ou mais novo, é um bilhete de lotaria… Premiado!

O que eu quero dizer com isto, é que nós temos duas opções. Ou, aprendemos diariamente a acordar e a escolher o que vale a pena fazer, sentir e amar, e ser feliz. Ou simplesmente levamos uma vida de preocupações, na esperança que o próximo dia é o ultimo.

Eu penso da seguinte maneira: “pena para as latas de atum que trazem uma data de fim de consumo. Muitas vezes acabam intactas no lixo, porque achamos sempre que o dia de amanha ainda está longe do fim. Já nós, não trazemos a nossa data de fim, impressa no calcanhar, pelo menos não visível. Portanto, hoje pode ser mesmo o último dia. Assim, o melhor é saborear um bom bolo de chocolate e acreditar que amanhã se não houver fatia faço um novo. Ou então, se não houver amanha, ao menos este vai comigo.”

Para mim nós nascemos para viver, amar e ser felizes!
BOLO DE CHOCOLATE
O que vais precisar?

  • 125ml de Óleo;
  • 1 colher de sobremesa de baunilha
  • 125gr de açúcar;
  • 4 ovos;
  • 200gr de chocolate negro em tablete (50% ou mais de cacau);
  • 60 gr de farinha;
  • 60gr de amido de milho;
  • meia colher de café de fermento em pó;

Como vais fazer?

  1. Liga o forno a 130º;
  2. Colocas o óleo e o chocolate em banho-maria, até juntos formarem uma calda bem homogénea;
  3. Bates os ovos com o açúcar e a baunilha até duplicar o tamanho;
  4. Adicionas a farinha o amido e o fermento, misturas bem;
  5. Agora adicionas o chocolate com o óleo. Envolve muito bem a massa;
  6. Colocas o preparado numa forma, previamente untada;
  7. Levas ao forno, e acompanha a cozedura, até não sair massa no palito.

Quero deixar bem claro, que eu adicionei, antes de levar o bolo ao forno, bombons frutos do mar, a todo o bolo, ou seja não aguentei muito para ele ter uma temperatura aceitável e poder ser comido…

Et voilá! Vamos viver o nosso “prazo”…

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De volta…

Estamos de volta a casa.

Estivemos fora 15 dias.

Depois de 7 anos de namoro, pedimos ao Sr. Padre José Pedro, que nos abençoasse a união. Vá, que nos casasse. Decidimos convidar só família chegada e amigos, daqueles que são mais família do que amigos. Escolhemos um local que nos fizesse recordar, o quão romântico Sintra é. Decidimos fazer uma lua-de-mel, daquelas que implicam uma mochila às costas de cada um e uma mala com rodas mais ou menos resistente que sobreviva às atrocidades das viagens de avião. Escolhemos o dia 23 de Junho, porque o S. João é um santo feliz e festivo, tal como nós.

Foi um dia, que eu julgo, nunca mais na vida me vou esquecer. E quando a morte vier, vou tentar que não me apague da memória o sorriso do meu marido quando me viu, ali, a chegar ao altar, pronta para o abraçar. Vou também pedir-lhe que me deixe na memória a alegria que atingiu todos os nossos convidados e staff que nos rodearam naquele bonito dia de verão. E que dia. Nós rimos, comemos, dançamos, choramos e amamos. Amamos toda a gente.

No fim do dia, não foi um fim de festa, foi um até já meninos divirtam-se na vossa aventura…

No dia seguinte entregamos ornamentos e indumentárias aos nossos pais, num jantar de francesinhas. Nova festança em família.

Dois dias depois metemo-nos em três aviões com destino a Veneza, depois Florença, depois Roma, depois Dubrovnik e finalmente Barcelona. Caminhamos imenso, fotografamos sem fim, e fizemos o chamado culturismo. Aquisição de cultura  por meio de atos sociais, o que inclui idas a teatro, cinema, exposições e museus. Recebemos tanta informação, que acabamos minimeus num mundo de gigantes.

Voltamos no sábado, trazíamos o coração apertadinho porque não víamos o nosso companheiro de casa há 15 dias. Deixamo-lo numa academia de verão.

Quando nos reunimos os três em casa, fui invadida pela descompressão. Dores de garganta, nariz a pingar, tosse seca… No entanto nada disso tem valor, porque hoje tive finalmente paciência para estufar bifes. Deixar que a carne estufasse lentamente, enquanto tratava dos meus “rapazes”.

Hoje, voltei para ser a “mãe” da família Rocha Couto.

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BIFES ESTUFADOS

O que vais precisar:

  • 1 Chalota moída;
  • 1 Colher de sopa de azeite;
  • 1 Colher de sopa de Manteiga;
  • 2 Colheres de sopa de rabo de boi em Pó;
  • 1 Cerveja;
  • Agua qb;
  • 1 Colher de café de Sal grosso;
  • 1 Colher de café de molho Inglês.

Como vais fazer?

  1. Colocas todos os ingredientes, menos os bifes numa frigideira funda;
  2.  Misturas bem, e quando levantar fervura, colocas os bifes;
  3. Deixa os bifes estufar durante 1,5h;
  4. Vai acrescentando água, e retificando os condimentos;
  5. Serve com arroz/ batatinhas assadas.

 

 

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Ao meu marido!

São 19.33 de segunda-feira dia 25/6.

Estou esgotada, sentada ao lado do meu marido, num lounge do aeroporto de Frankfurt.

O meu marido.

Casamos no sábado passado. Houve nesse dia um apaziguamento quente entre os santos populares. Esteve um sol incrível, que me aqueceu a alma, mas não tanto como o abraço que o meu marido me deu quando cheguei ao pé dele no altar.

Foi possivelmente dos mais bonitos dias da minha vida. Eu sou uma pessoa feliz… Confesso que um bolo de chocolate é suficiente para me deixar feliz. Mas no sábado foi diferente. No sábado eu deixei o meu nome de 30anos para ser Rocha Couto. Não que o Pedro fizesse questão disso, mas eu fiz. Porque agora somos uma família, a família Rocha Couto. E foi essa felicidade que me encontrou no sábado, a felicidade de iniciar oficialmente (porque, fora os olhos oficiosos já começou à mais tempo) a família Rocha Couto. Temos um “filho” de quatro patas, e provavelmente teremos um de duas… Mas somos família. E isso para mim é motivo para ser a pessoa mais feliz de sempre.

Hoje estamos a tentar chegar a Veneza à aproximadamente 16h, mas estamos juntos. Estamos esgotados, mas estamos juntos. Estamos revoltados com esperas e trocas e baldrocas de voos… Estamos a roçar o desespero, e eu já chorei como uma criança abandonada, ali no sítio do aeroporto onde a única coisa que se houve é a senhora das informações. E o meu marido, que se está a controlar para não ser preso em território europeu mas não nacional, deu-me um abraço com sabor a casa… E eu parei de chorar e pensei, Veneza deve ser incrível e nós devemos lá chegar a qualquer momento, mas contigo eu espero. Eu aguardo, porque já não estou sozinha, agora tenho sempre o maridão por perto!