Quando num dia estás e no outro já não…

Versão Portuguesa

Existem momentos nas nossas vidas que nos fazem questionar, até que ponto vale a pena andar por estes lados.

Eu tive um desses momentos este fim-de-semana.

Eu não sou muito de olhar para a vida, e pensar na sorte de ser bafejada com tantas coisas boas e pessoas incríveis. Sou mais do tipo, ainda bem que aqui estás. Sigo em frente, amanhã é outro dia, mas o que conta é o hoje. O problema é que tudo é efémero, e já dizia o João Pedro Pais:” Ninguém é de ninguém, mesmo quando se alma alguém”. Todos temos um caminho, pessoas a encontrar, todos temos pessoas a quem tocar. Ou seja, a vida é feita de pequenas ligações que de alguma forma nos vão fazer chegar a outros, ou que de alguma forma nos vão fazer crescer.

Todos temos, ao longo dos anos, encontros e desencontros, e muitas vezes fazemos comentários como: “Raios, 10 minutos da minha vida perdidos”. A verdade, é que não é bem assim, esses 10 minutos, a certa altura da vida vão responder a alguma questão.

Quando eu era miúda, comecei a conviver com 3 senhoras com alguma idade, 2 ainda não eram consideradas idosas, mas a terceira não só era idosa, como teve uma passagem física por mim quase tão rápida como o desenvolvimento de um bebé na barriga da mãe. Porém, gravo memórias dela sentada na sua poltrona e muito parca em palavras. Do contacto com essas três “meninas”, recordo o gelado feast, mas não é aquele que hoje temos à venda, é um primo afastado cujo interior era feito de leite e o exterior chocolate negro e amêndoa. Este gelado aparecia imensas vezes, depois de jantares que tínhamos em casa daquelas três. Eu e a Marta acabávamos quase sempre, no jardim a lambuzarmo-nos com o gelado, enquanto os adultos à mesa conversavam sobre coisas que nunca me chamaram muita atenção. Os jantares ali repetiram-se durante alguns anos, alguns deles já sem a velhinha, mais velhinha.

Os aos passaram, e as duas restantes mantiveram-se sempre por perto. Ou porque as laranjas tinham rebentado e estava na hora de ir buscar algumas, ou porque o natal estava à porta e as couves estavam à espera. Enfim, sempre foram duas pessoas que perdido e achado lá ouvíamos falar nelas.

Entretanto os invernos, que aos olhos da juventude sabem a camisolas quentes, novas e giras, aos olhos da Ilda e da Gracinda, tornaram-se demasiado frios. Como os amigos eram a única opção para as duas, a decisão foi pedir ajuda para passar mais um inverno.

Os amigos, os meus pais, fizeram o que tantas vezes sentiram não ser capazes de fazer, adotaram as duas como se de filhas se tratassem. Filhas mais velhas é certo, mas filhas. Ora eu e a Marta, já sem feast, aproveitamos e adotamo-las também. Tias ou as Avós que tão cedo nos foram arrancadas.

Em resumo, passamos de uma família de 4 com um cão a uma família de 6 com cão e gato. Fizemos tudo o que uma família normal e feliz faz. Até tínhamos aquela avó que fala muito e não diz coisas muito acertadas, que também é a avó que opina sobre tudo o que não sabe. Que também é a avó que muitas vezes queremos que se cale um bocadinho, porque já chateia. Contudo, é avó. Os avós são aquelas pessoas que apesar de tudo, ficam altamente felizes quando estamos por perto. A Gracinda era assim, adorava que lhe arranjasse as unhas, que lhe desse coisas doces, que na mesa houvesse sempre salada com tomates e alfaces do campo dela, que ao domingo o meu pai a levasse ate ao café para ela poder conversar com as novas amigas. Era uma pessoa de lida simples, o que justifica o facto de tanta gente a conhecer. Era uma pessoa vaidosa, com 50 saias no armário e mesmo assim, precisava de uma nova… Teimosia não lhe faltava, o não, ia acabar sempre em sim. Enfim, uma jovem num corpo travesso e mal mandado.

Os invernos são mesmo muito rigorosos, para alguém tão vivo de espirito e fraco de corpo. Os invernos levam-nos parte da alma quando não conseguimos ver com clareza a cor das flores… Mas foi no fim da primavera que a Gracinda deixou de ver tudo, a partir do corpo que lhe designaram à 85 anos atrás.

Resta-me agora a avó Ilda, de cabeça branquinha como a neve, pele crestada pelo sol, e olhos da cor do céu em dia de sol. Para compensar, o facto de nem sempre ter tido paciência com a Gracinda, vou aproveitar bem a Ilda. Não sei se ma tiram no fim deste verão ou só do próximo. Sei, que não quero nada sentir a sensação de perda que senti este fim-de-semana que passou.

English Version

There are moments in our lives that make us question, why are we here?

I had one of those moments this past weekend.

I’m not much to look at life, and think about the good fortune to be graced with so many good things and amazing people. I’m more like, I’m glad you’re here. Go on, tomorrow is another day, but what counts is today. The problem is that everything is ephemeral, like João Pedro Pais’ song: “No one belongs to anyone, even when you’re in love.” We all have a way, people to find, people to tuch. In other words, life is made of small encounters that somehow we are going to have and somehow will make you grow.

Over the years, we might say sometimes: “Damn, 10 minutes of my life lost, because of this person” The truth is, these 10 minutes, at a certain point of life will answer any questions in our life.

When I was a kid, I started to private with 3 ladies with long age, 2 were not considered elderly, but the third was not only elderly, as had a physical passage for me almost as fast as the development of a baby in the womb . However, I remember her, sitting in her chair and sparse in words. In the contact with these three “girls”, I remember the ice cream feast, but it is not one that today we have for sale nowadays, is a distant cousin whose interior was made of milk and the outside black and almond chocolate. This ice cream appeared many times, after dinner we had at home of those three. Myself and Marta spent time after dinner eating ice cream in the garden, while the adults at the table talked about things that never caught my attention. The dinners there were repeated for a few years, some of them already without the elder lady.

Years gone, and the remaining two ladies were always around. Either because oranges were busted and it was time to go get some, or because the Christmas was at the door and the sprouts were waiting. Anyway, they were always 2 people in our life.

Suddenly winters came by. For the eyes of young people this means warm, cute and new sweaters, but for both, Ilda and Gracinda, it became too cold. As friends were the only option for the two, the decision was to ask for help to spend another winter.

Friends, my parents, did what so often they felt not be able to do, have adopted two daughters as if they were theirs. Older daughters, but daughters. Now myself and Martha have no feast, but decided to adopt them as well. Aunts or grandparents, like the ones that so early were taken from us.

In short, we went from a family of 4 with a dog to a family of 6 with dog and cat. We did everything a normal, happy family does. We even had one grandmother who talks a lot and says things not very right, which is also the grandmother who opines on everything you do. Which is also the grandmother who often you want to shut up a little, because it’s boring. However, she is grandmother. Grandparents are those people who after all, are highly happy when we’re around. Gracinda was like that, she loved when we spent time doing her nails, when we gave her sweet things, when salads were cooked with tomatoes and lettuce from her field, when on Sunday my father took her to the café house so she could talk to the new friends. It was a person of simple deal, which justifies the fact that so many people knew her. She was also a bit vain, 50 skirts in the closet and still needed a new one … Stubbornness was her deal, not, would always end in a yes for her. Finally, she was a young woman in a mischievous and evil warrant body.

Winters are really strict, for someone with such an alive spirit and weak body. Winters take us part of the soul when we cannot see clearly the color of the flowers … But it was in the late spring that Gracinda left to see everything from the body given to her 85 years ago.

Now we only have Ilda, a grandmother with hear colored as snow, light brown skin colored by the sun, and eyes with the color of the sky on a sunny day. To compensate, the fact that I did not always had patience with Gracinda, I will have more patience with Ilda. I do not know if she will be taken from me later this summer or just on the next one. I know, I do not want anything to feel the sense of loss I felt this past weekend.

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2 pensamentos sobre “Quando num dia estás e no outro já não…

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